...Trapos da Maltrapilha...

"Da mesma forma que todo homem inteligente sabe que é estúpido, o cristão desperto sabe que é maltrapilho." - Brennan Manning

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sexta-feira, agosto 29, 2014

Por que alguns odeiam tanto o PT?

Cerca de 30% da população brasileira tem como seu hobby favorito odiar o PT. Tais “odiadores” são majoritariamente oriundos da classe média alta com ensino superior.
Aparentemente, o motivo cabal para esse ódio é o PT ser um partido com alguns políticos corruptos, inclusive, condenados judicialmente, no famoso caso do Mensalão.
Porém, esse argumento não me convence. Convence você?
A mim não convence porque escândalos de corrupção – para nossa infelicidade – são historicamente conhecidos em quase todos os governos e partidos. E não vejo os “odiadores” vociferarem contra tais partidos e políticos conhecidamente corruptos.
A antipatia odiosa, então, é exclusivamente contra o PT. Mas por quê? Por que essa exclusiva onda de “odiadores” contra o partido dos trabalhadores?
Minha tese é que os últimos três governos federais mudaram as “regras do jogo” e aqueles brasileiros que estavam treinados e gabaritados a sempre ganhar, hoje, se vêem obrigados a reaprender a jogar com regras e contextos mais coletivos e menos segregados.
Isso irrita mesmo. Ser obrigado a se repensar e mudar seu modo de vida, mesmo que seja para o bem comum, incomoda. Dá preguiça.  “Como assim não é mais do jeito que sempre foi?”, pensam os “odiadores”.
E como o Brasil sempre foi?
Sempre fomos um país de maioria de pobres e miseráveis contra poucos com qualidade de vida digna.
Sempre fomos um país racista que manteve milhões de negros em lugares de subalternidade e muito longe das universidades e posições de poder.
Sempre fomos uma nação machista na qual mulheres não eram consideradas agentes políticos.
Sempre fomos uma sociedade onde muitos nãos tinham acesso a saneamento básico e eletricidade.
Sempre fomos um país no qual os pobres não tinham acesso de baixo custo aos meios de comunicação e informação e, consequentemente, aceitavam as “verdades” dos doutores dos conhecimentos sem muito questionar.
Sempre fomos uma nação onde poucos usavam aviões como meio de transporte.
Sempre fomos um país em que ter casa própria era algo inatingível para os mais pobres.
Sempre fomos uma sociedade no qual atendimento médico era simplesmente inexistente para milhões de pessoas.
Sempre fomos um Brasil com dois “Brasis” dentro: Um muito miserável e outro com acesso aos direitos básicos e até supérfluos.
Hoje, após 12 anos, o Brasil tem outras regras e as linhas acima não são mais a nossa realidade.
Mas não é uma melhor realidade que causa incomodo e consequentemente ódio àqueles, mencionados, 30% da população. Até porque o ódio é tanto que cegou tais pessoas de enxergarem tais evidentes melhorias. Não só porque nunca precisaram conviver ou mesmo conhecer a miséria material e simbólica, mas porque a principal regra mudada é um “tapa na cara” no ego dessas pessoas, dizendo “VOCÊ NÃO É, COMO SEMPRE PENSOU, UM HERÓI BATALHADOR QUE TRABALHOU MUITO E FEZ POR MERECER CADA CONQUISTA DA SUA VIDA. NÃO, DESCULPE, MAS VOCÊ É PARTE DE UM REDUZIDO GRUPO QUE SEMPRE TEVE ALGUM TIPO DE PRIVILÉGIO E/OU ACESSO AO QUE MILHÕES DE OUTRAS PESSOAS NÃO TIVERAM.”
Isso não quer dizer que essas pessoas não se esforçaram. Óbvio que sim. Do mesmo modo que os milhões de desfavorecidos também. É aqui que as mudanças sociais advindas das políticas públicas dos governos Lula-Dilma enfiam o dedo na ferida dos seus “odiadores”: Vivíamos em um esquema social com regras muito cruéis, no qual poucos se favoreciam e a maioria era explorada e subjugada. Ou seja, se você e sua família se deram bem não foi única exclusivamente por causa do suor do trabalho de vocês, mas, principalmente, porque conseguiram se estabelecer no lado e nas regras daqueles que se favoreciam no antigo jogo.
Não à toa é costumeiro ouvirmos os “odiadores” desqualificarem as políticas chamando-as de “bolsas-esmola”. Tal atitude é, no fundo, um grito de ódio contra o espelho, contra a si mesmo, mas que se expressa equivocadamente. Os “odiadores do PT” gritam porque as narrativas que sempre embasaram suas histórias - familiares e pessoais - de sucesso foram colocadas em xeque e caíram por terra. Perderam o encanto do conto de fadas do mérito pessoal.
Isso incomoda. Isso irrita. Que ódio! Ódio do quê? De quem?

“Da Dilma e dos ‘PTralhas’!!!”, evidente. Auto-reflexão e mudança de modo de vida, visando o bem comum doem muito, demandam esforço emocional. É mais cômodo ignorar minha cegueira e dizer que os pobres não sabem votar. No fundo, os “odiadores” rezam para tudo voltar como era. “A bola é minha! Se eu não ganho, ninguém joga.”

sábado, outubro 25, 2008

"Saudade engole a gente"

Há algum tempo (não sei bem precisar quanto) não ficava completamente sozinha.
O estranho é que a solidão é algo que eu prezava muito, pois julgava-me uma boa companhia a mim mesma. Não sei se perdi o apreço pela "auto-convivência" ou se simplesmente conheci pessoas tão interessantes a ponto de me completarem.
O fato é que hoje me percebi distante, física e emocionalmente, de muitos amigos.
Sinto-me ilhada.
O que não significa que eu esteja triste ou infeliz.
Pelo contrário, pois se assim estivesse, talvez, não percebesse e compreendesse a relevância deste vazio em meu peito. Esta sensação de que falta alguma coisa me convence de que o que eu vivi até aqui me possibilitou a graça de descobrir pessoas incríveis, que me ensinaram a olhar e sentir o mundo de maneiras diversas.
Algumas delas convivi diariamente durante anos. Outras compartilhei momentos escassos. Outras apenas cruzei em algum ponto do caminho.
Como disseram Djavan e Chico Buarque a "saudade engole a gente", mas não significa necessariamente algo ruim, porque em muitos casos ela não significa exatamente o fim. Talvez a saudade signifique possibilidades de recomeço, pois ela é a marca dolorida de que a semente de algo bom que foi semeada em nós deseja brotar e produzir novos, belos e surpreendentes ramos.


segunda-feira, setembro 22, 2008

O que não mais quero ser


Sempre evitei definições pessoais. Talvez porque não acredite nelas. Ou porque não queira me limitar a elas. Na maior parte do tempo prefiro que as músicas e os poemas falem por minha personalidade ou reflitam um determinado contexto pessoal.

Entretanto, há momentos da vida que demandam um começo e um fim, um travessão e um ponto final que demarquem as fronteiras do que as experiências, as pessoas e os sonhos resultaram em nós. Atualmente vivo este momento:

- Hoje eu compreendo que sou conseqüência das minhas amizades. E não há nesta afirmação nenhum tom temível do tipo “diga-me com quem andas que direi quem tu és”, que ouvi inúmeras vezes de bocas ameaçadoras durante minha infância e adolescência. Pelo contrário, evidencio de maneira muito libertadora a possibilidade de vivenciar a humanidade com quem não tem medo dela. Descobri, por meio de determinadas amizades, que os “melhores corações” não necessitam afirmar que assim o são. Que as “melhores condutas” são aquelas que questionam o porquê do estabelecido. E que as “melhores mentes” não dependem e não desejam que todos ajam padronizadamente. Eu não sou boa. Eu não sou normal. Eu não sou inteligente. Eu não mais finjo para mim mesma ser o que não sou. Tudo isso porque me recuso cumprir os requisitos socialmente construídos de prestígio, de santidade e de normalidade que definem os marginalizados, os ímpios e os anormais. Tudo isso porque cansei de ser comum. A partir de agora aprenderei a incondicionalidade do amor entre os “imorais”.

[Thais Moya - 22/09/2008]

terça-feira, junho 26, 2007

Doses suaves de morte??



"Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade."

[Pablo Neruda]

quinta-feira, março 15, 2007





Olhando para o meu caleidoscópio, eu me pergunto:
- Conheço-te?
Busco as palavras para responder, procurando-me,
- Bem (...)
Não creio que HAJA um “eu”
Identificar quem eu sou é excluir-me de experimentar quem eu serei
Amanhã

Posso dizer-lhe o que aprendi sobre mim, o que eu
PENSO que constitui meu ser,
Mas, quem “EU SOU”,
Minha identidade,
é uma longa
diária,
surpreendente,
Revelação;
Existe enquanto existo
em tempo e espaço mutantes
de diferentes maneiras
Nunca inteiramente fixa mas baseada na vida,
na terra,
Existo aqui e agora.

Uma vez quis ligar-me a uma identidade
“Latina, ou “mulher”, ou (...) seja lá o que for – mas agora,
me ligo à Verdade de mim mesma;
um trabalho realizado pelo tempo,
noção “pós-estruturalista” de mim mesma,
a culminação de vários elementos que
Não cabem bem dentro uma caixa;
Não consigo desenganchar-me quando interrogada:
Identifique-se!
Latina?
- Certo,
Hispânica?
- hm, acho que (...)
Hispânica não branca?
- hhmm (...) Que quer dizer isso?
Sexo feminino?
- Sim
Mulher?
- Diria que sim, mas de qualquer forma, que é que você quer dizer com isso (...)?

Assim muitos elementos desarticulados aparecem
em mim e se expressam
todos os dias.
Convergem sem que eu saiba
Embora não sem meu reconhecimento –
Aprecio suas viagens para dentro de mim e a conseqüente descoberta;
Elementos que me roçam –
Ininteligivelmente,
por determinação própria
Sempre a dar-me um nome,
um coração, uma alma
Uma vida.
Aprecio a aprendizagem,
a experiência
o desejo de rir
e de ser amada,
de amar e viver
com o infinito milagre
de Ser que Eu sou.

(Laura Silvina Torres)

quinta-feira, dezembro 14, 2006

O extraordinário do ordinário.


“Não se joga uma vida inteira fora só porque ela está um pouco maltratada”*

Sempre ouvi que um dos pressupostos fundamentais de uma vida cristã é ter uma vida santa. Uma vida separada do mundo. Um mundo que jaz no maligno. Um maligno que anda ao meu redor procurando me devorar. Percebo, hoje, que tais idéias desacompanhadas de uma bem entendida concepção da GRAÇA em Cristo Jesus deformam o evangelho e, conseqüentemente, a vida cristã.
Facilmente confundimos a causa com os efeitos. Baseamos a caminhada cristã nos resultados e não na sua essência. Meu propósito não é desmentir a necessidade de uma vida santa, mas afirmar que uma vida santa como “um fim em si mesmo” é uma mentira. Pois nega o amor incondicional e redentor de DEUS dado a nós, manifestado na cruz por meio de seu Filho, Jesus.
Quando deturpamos este amor também começamos a esquecer que não há nada que podemos fazer para merecê-lo. Então, iniciamos uma caminhada inútil atrás deste merecimento. E, passo a passo, vamos nos afastando da GRAÇA de DEUS, em busca de uma super-espiritualidade que legitime nossa salvação.
Entretanto constantemente somos confrontados com nossa humanidade caída, que traz consigo o fracasso, a culpa, a dúvida, o medo e, conseqüentemente, a instabilidade espiritual. E esta pode ser fatal quando nossa espiritualidade está fundamentada em nós mesmos. Pois nossa credencial de santidade é invalidada e sentimo-nos largados, sozinhos e indignos de sermos chamados cristãos.
Ser um cristão é, antes de tudo, viver sustentado no AMOR gracioso do PAI. A partir disto conseguimos encarar nossas mazelas espirituais de frente, sem medo e sem dissimulação. Os dissimuladores não compreenderam a cruz e ainda vivem fantasiosamente como os semi-deuses e príncipes do poema de Fernando Pessoa.
Toda gente que eu conheço e fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida....Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Arre, estou farto de semi-deuses! Onde há gente no mundo?”
[1]

Jesus veio a este mundo para conviver, ensinar e morrer por esta “gente” procurada por Pessoa. Como o próprio Jesus disse
[2], ELE não veio chamar os justos e, sim, os pecadores ao arrependimento. Portanto ignorar ou disfarçar nossa imperfeição é não aceitar Seu chamado completamente.
O primeiro contato com este chamado irresistível do amor de CRISTO tende a ser extraordinário! Nossas vidas borbulham entusiasmo e dedicação ao Mestre. Porém a rotina possui um poder enorme sobre o extraordinário e, aos poucos, mas eficazmente dissipa o entusiasmo em nós. E neste momento é imprescindível que nossa vida cristã esteja consolidada na GRAÇA e não em nossos resultados, para que consigamos prosseguir a caminhada e aperfeiçoarmo-nos no amor de DEUS.
Embora o extraordinário seja importante em alguns momentos específicos desta caminhada, é por meio do ordinário que nossas vidas são solidamente transformadas. É no ordinário que nossas máscaras atuam com intuito de esconder nossas imperfeições, logo, é quando elas podem “cair” definitivamente. Segundo Brennan Manning, os cristãos maduros que ele conheceu “ao longo do caminho são aqueles que falharam e aprenderam a viver de forma graciosa com seu fracasso. A fé requer a coragem de arriscar tudo em Jesus, a disposição de continuar crescendo e a prontidão de arriscar o fracasso ao longo de toda nossa vida”
[3].
A tão falada “vida santa” é um aperfeiçoamento constante. A palavra APERFEIÇOAR é oriunda da palavra PERFEIÇÃO e, isto, só “obtemos” por meio do sacrifício de Cristo, o perfeito. Relacionarmo-nos com a perfeição não nos faz perfeitos, pelo contrário, traz a tona nossa imperfeição e é somente nesta ocasião que aprendemos quem realmente somos e o que a GRAÇA de DEUS significa.

Thais S. Moya
12 de Junho de 2006


* Frase dita no filme “Seabiscuit”.
[1] Pessoa, Fernando. “Poema em linha reta”. In: Cassal, Sueli T. “Poesias”. Porto Alegre: L&PM, 1996.
[2] Evangelho segundo Mateus 9: 9-13; Evangelho segundo Marcos 2: 13-17 e Evangelho segundo Lucas 5:27-32.
[3] Manning, Brennan. “O Evangelho Maltrapilho”. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p.192.

domingo, outubro 22, 2006

Quartos escuros...

Causa-me repulsa enxergar o que há dentro de mim. Lá existem coisas que eu prefiro não saber. Entretanto lá elas estão e agora eu já sei.
Quartos escuros foram invadidos e remexidos. E uma pequena fenda permitiu luz.
Muito de mim guardado, amarrado em caixas escondidas. Outras disfarçadas em meio a todo resto.
Quase não reconheci. Por pouco não conclui que pertenciam a alguém distraído que por ali tinha passado. Logo lembrei que apenas eu conheço o caminho.
Um homem uma vez escreveu:

“(...)Tenho mais almas que uma.
Há mais ´eus´ do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam...”
[1]

Seria isso, então? Estava eu sendo apresentada ao restante de mim?
Não apreciei o que vi. Ou será que era meu bom senso (bom?) alertando-me a não apreciar?

Já era tarde. O restante de mim havia me reconhecido. E logo reivindicou seu espaço.
Soltei as amarras e libertei sentimentos sufocados, perguntas caladas e vontades desnutridas.
Livres, cresceram e quase não cabem em mim.
Vivo um constante estranhamento e reconhecimento do que sou.
Talvez ainda me reste tempo e oportunidade de não repetir o que viveu o homem:

“Fiz de mim o que não soube.
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho
Já tinha envelhecido.”
[2]

Não quero mais mentir. Ou omitir (se assim prefere) quem realmente sou.
Encontrei o que havia perdido: minha mais sincera humanidade.
De humanidade sou feita. E a humanidade nunca foi perfeita.


[1] Pessoa, Fernando. Odes de Ricardo Reis.
[2] Pessoa, Fernando. Tabacaria.