...Trapos da Maltrapilha...
"Da mesma forma que todo homem inteligente sabe que é estúpido, o cristão desperto sabe que é maltrapilho." - Brennan Manning
sexta-feira, agosto 29, 2014
sábado, outubro 25, 2008
"Saudade engole a gente"
O estranho é que a solidão é algo que eu prezava muito, pois julgava-me uma boa companhia a mim mesma. Não sei se perdi o apreço pela "auto-convivência" ou se simplesmente conheci pessoas tão interessantes a ponto de me completarem.
O fato é que hoje me percebi distante, física e emocionalmente, de muitos amigos.
Sinto-me ilhada.
O que não significa que eu esteja triste ou infeliz.
Pelo contrário, pois se assim estivesse, talvez, não percebesse e compreendesse a relevância deste vazio em meu peito. Esta sensação de que falta alguma coisa me convence de que o que eu vivi até aqui me possibilitou a graça de descobrir pessoas incríveis, que me ensinaram a olhar e sentir o mundo de maneiras diversas.
Algumas delas convivi diariamente durante anos. Outras compartilhei momentos escassos. Outras apenas cruzei em algum ponto do caminho.
segunda-feira, setembro 22, 2008
O que não mais quero ser
Sempre evitei definições pessoais. Talvez porque não acredite nelas. Ou porque não queira me limitar a elas. Na maior parte do tempo prefiro que as músicas e os poemas falem por minha personalidade ou reflitam um determinado contexto pessoal.
Entretanto, há momentos da vida que demandam um começo e um fim, um travessão e um ponto final que demarquem as fronteiras do que as experiências, as pessoas e os sonhos resultaram
- Hoje eu compreendo que sou conseqüência das minhas amizades. E não há nesta afirmação nenhum tom temível do tipo “diga-me com quem andas que direi quem tu és”, que ouvi inúmeras vezes de bocas ameaçadoras durante minha infância e adolescência. Pelo contrário, evidencio de maneira muito libertadora a possibilidade de vivenciar a humanidade com quem não tem medo dela. Descobri, por meio de determinadas amizades, que os “melhores corações” não necessitam afirmar que assim o são. Que as “melhores condutas” são aquelas que questionam o porquê do estabelecido. E que as “melhores mentes” não dependem e não desejam que todos ajam padronizadamente. Eu não sou boa. Eu não sou normal. Eu não sou inteligente. Eu não mais finjo para mim mesma ser o que não sou. Tudo isso porque me recuso cumprir os requisitos socialmente construídos de prestígio, de santidade e de normalidade que definem os marginalizados, os ímpios e os anormais. Tudo isso porque cansei de ser comum. A partir de agora aprenderei a incondicionalidade do amor entre os “imorais”.
[Thais Moya - 22/09/2008]
terça-feira, junho 26, 2007
Doses suaves de morte??

"Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade."
[Pablo Neruda]
quinta-feira, março 15, 2007
- Conheço-te?
Busco as palavras para responder, procurando-me,
- Bem (...)
Não creio que HAJA um “eu”
Identificar quem eu sou é excluir-me de experimentar quem eu serei
Amanhã
Posso dizer-lhe o que aprendi sobre mim, o que eu
PENSO que constitui meu ser,
Mas, quem “EU SOU”,
Minha identidade,
é uma longa
diária,
surpreendente,
Revelação;
Existe enquanto existo
em tempo e espaço mutantes
de diferentes maneiras
Nunca inteiramente fixa mas baseada na vida,
na terra,
Existo aqui e agora.
Uma vez quis ligar-me a uma identidade
“Latina, ou “mulher”, ou (...) seja lá o que for – mas agora,
me ligo à Verdade de mim mesma;
um trabalho realizado pelo tempo,
noção “pós-estruturalista” de mim mesma,
a culminação de vários elementos que
Não cabem bem dentro uma caixa;
Não consigo desenganchar-me quando interrogada:
Identifique-se!
Latina?
- Certo,
Hispânica?
- hm, acho que (...)
Hispânica não branca?
- hhmm (...) Que quer dizer isso?
Sexo feminino?
- Sim
Mulher?
- Diria que sim, mas de qualquer forma, que é que você quer dizer com isso (...)?
Assim muitos elementos desarticulados aparecem
em mim e se expressam
todos os dias.
Convergem sem que eu saiba
Embora não sem meu reconhecimento –
Aprecio suas viagens para dentro de mim e a conseqüente descoberta;
Elementos que me roçam –
Ininteligivelmente,
por determinação própria
Sempre a dar-me um nome,
um coração, uma alma
Uma vida.
Aprecio a aprendizagem,
a experiência
o desejo de rir
e de ser amada,
de amar e viver
com o infinito milagre
de Ser que Eu sou.
(Laura Silvina Torres)
quinta-feira, dezembro 14, 2006
O extraordinário do ordinário.

Sempre ouvi que um dos pressupostos fundamentais de uma vida cristã é ter uma vida santa. Uma vida separada do mundo. Um mundo que jaz no maligno. Um maligno que anda ao meu redor procurando me devorar. Percebo, hoje, que tais idéias desacompanhadas de uma bem entendida concepção da GRAÇA em Cristo Jesus deformam o evangelho e, conseqüentemente, a vida cristã.
Facilmente confundimos a causa com os efeitos. Baseamos a caminhada cristã nos resultados e não na sua essência. Meu propósito não é desmentir a necessidade de uma vida santa, mas afirmar que uma vida santa como “um fim em si mesmo” é uma mentira. Pois nega o amor incondicional e redentor de DEUS dado a nós, manifestado na cruz por meio de seu Filho, Jesus.
Quando deturpamos este amor também começamos a esquecer que não há nada que podemos fazer para merecê-lo. Então, iniciamos uma caminhada inútil atrás deste merecimento. E, passo a passo, vamos nos afastando da GRAÇA de DEUS, em busca de uma super-espiritualidade que legitime nossa salvação.
Entretanto constantemente somos confrontados com nossa humanidade caída, que traz consigo o fracasso, a culpa, a dúvida, o medo e, conseqüentemente, a instabilidade espiritual. E esta pode ser fatal quando nossa espiritualidade está fundamentada em nós mesmos. Pois nossa credencial de santidade é invalidada e sentimo-nos largados, sozinhos e indignos de sermos chamados cristãos.
Ser um cristão é, antes de tudo, viver sustentado no AMOR gracioso do PAI. A partir disto conseguimos encarar nossas mazelas espirituais de frente, sem medo e sem dissimulação. Os dissimuladores não compreenderam a cruz e ainda vivem fantasiosamente como os semi-deuses e príncipes do poema de Fernando Pessoa.
“Toda gente que eu conheço e fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida....Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Arre, estou farto de semi-deuses! Onde há gente no mundo?”[1]
Jesus veio a este mundo para conviver, ensinar e morrer por esta “gente” procurada por Pessoa. Como o próprio Jesus disse [2], ELE não veio chamar os justos e, sim, os pecadores ao arrependimento. Portanto ignorar ou disfarçar nossa imperfeição é não aceitar Seu chamado completamente.
O primeiro contato com este chamado irresistível do amor de CRISTO tende a ser extraordinário! Nossas vidas borbulham entusiasmo e dedicação ao Mestre. Porém a rotina possui um poder enorme sobre o extraordinário e, aos poucos, mas eficazmente dissipa o entusiasmo em nós. E neste momento é imprescindível que nossa vida cristã esteja consolidada na GRAÇA e não em nossos resultados, para que consigamos prosseguir a caminhada e aperfeiçoarmo-nos no amor de DEUS.
Embora o extraordinário seja importante em alguns momentos específicos desta caminhada, é por meio do ordinário que nossas vidas são solidamente transformadas. É no ordinário que nossas máscaras atuam com intuito de esconder nossas imperfeições, logo, é quando elas podem “cair” definitivamente. Segundo Brennan Manning, os cristãos maduros que ele conheceu “ao longo do caminho são aqueles que falharam e aprenderam a viver de forma graciosa com seu fracasso. A fé requer a coragem de arriscar tudo em Jesus, a disposição de continuar crescendo e a prontidão de arriscar o fracasso ao longo de toda nossa vida” [3].
A tão falada “vida santa” é um aperfeiçoamento constante. A palavra APERFEIÇOAR é oriunda da palavra PERFEIÇÃO e, isto, só “obtemos” por meio do sacrifício de Cristo, o perfeito. Relacionarmo-nos com a perfeição não nos faz perfeitos, pelo contrário, traz a tona nossa imperfeição e é somente nesta ocasião que aprendemos quem realmente somos e o que a GRAÇA de DEUS significa.
Thais S. Moya
* Frase dita no filme “Seabiscuit”.
[1] Pessoa, Fernando. “Poema em linha reta”. In: Cassal, Sueli T. “Poesias”. Porto Alegre: L&PM, 1996.
[2] Evangelho segundo Mateus 9: 9-13; Evangelho segundo Marcos 2: 13-17 e Evangelho segundo Lucas 5:27-32.
[3] Manning, Brennan. “O Evangelho Maltrapilho”. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p.192.
domingo, outubro 22, 2006
Quartos escuros...
Quartos escuros foram invadidos e remexidos. E uma pequena fenda permitiu luz.
Muito de mim guardado, amarrado em caixas escondidas. Outras disfarçadas em meio a todo resto.
Quase não reconheci. Por pouco não conclui que pertenciam a alguém distraído que por ali tinha passado. Logo lembrei que apenas eu conheço o caminho.
Um homem uma vez escreveu:
“(...)Tenho mais almas que uma.
Há mais ´eus´ do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam...”[1]
Seria isso, então? Estava eu sendo apresentada ao restante de mim?
Não apreciei o que vi. Ou será que era meu bom senso (bom?) alertando-me a não apreciar?
Já era tarde. O restante de mim havia me reconhecido. E logo reivindicou seu espaço.
Soltei as amarras e libertei sentimentos sufocados, perguntas caladas e vontades desnutridas.
Livres, cresceram e quase não cabem em mim.
Vivo um constante estranhamento e reconhecimento do que sou.
Talvez ainda me reste tempo e oportunidade de não repetir o que viveu o homem:
“Fiz de mim o que não soube.
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho
Já tinha envelhecido.”[2]
Não quero mais mentir. Ou omitir (se assim prefere) quem realmente sou.
Encontrei o que havia perdido: minha mais sincera humanidade.
De humanidade sou feita. E a humanidade nunca foi perfeita.

