...Trapos da Maltrapilha...

"Da mesma forma que todo homem inteligente sabe que é estúpido, o cristão desperto sabe que é maltrapilho." - Brennan Manning

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domingo, outubro 22, 2006

Quartos escuros...

Causa-me repulsa enxergar o que há dentro de mim. Lá existem coisas que eu prefiro não saber. Entretanto lá elas estão e agora eu já sei.
Quartos escuros foram invadidos e remexidos. E uma pequena fenda permitiu luz.
Muito de mim guardado, amarrado em caixas escondidas. Outras disfarçadas em meio a todo resto.
Quase não reconheci. Por pouco não conclui que pertenciam a alguém distraído que por ali tinha passado. Logo lembrei que apenas eu conheço o caminho.
Um homem uma vez escreveu:

“(...)Tenho mais almas que uma.
Há mais ´eus´ do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam...”
[1]

Seria isso, então? Estava eu sendo apresentada ao restante de mim?
Não apreciei o que vi. Ou será que era meu bom senso (bom?) alertando-me a não apreciar?

Já era tarde. O restante de mim havia me reconhecido. E logo reivindicou seu espaço.
Soltei as amarras e libertei sentimentos sufocados, perguntas caladas e vontades desnutridas.
Livres, cresceram e quase não cabem em mim.
Vivo um constante estranhamento e reconhecimento do que sou.
Talvez ainda me reste tempo e oportunidade de não repetir o que viveu o homem:

“Fiz de mim o que não soube.
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho
Já tinha envelhecido.”
[2]

Não quero mais mentir. Ou omitir (se assim prefere) quem realmente sou.
Encontrei o que havia perdido: minha mais sincera humanidade.
De humanidade sou feita. E a humanidade nunca foi perfeita.


[1] Pessoa, Fernando. Odes de Ricardo Reis.
[2] Pessoa, Fernando. Tabacaria.

segunda-feira, outubro 16, 2006

o desespero necessário

"Perder a esperança em relação a si mesmo, desesperar-se por desejar ser si próprio, desesperar-se por querer livrar-se de si mesmo, desesperar-se por querer devorar a si mesmo, eis a fórmula para todo desespero. Esta última forma de desespero pode também ser identificada como a origem da outra forma de desespero, a de desejar ser a si mesmo, assim como as outras duas formas de desespero - a de não desejar a si mesmo e a de desejar livrar-se de si mesmo - têm suas raízes no desespero de desejar ser si mesmo."
Kierkegaard