Por que alguns odeiam tanto o PT?
Cerca de 30% da população brasileira tem como seu hobby
favorito odiar o PT. Tais “odiadores” são majoritariamente oriundos da classe média
alta com ensino superior.
Aparentemente, o motivo cabal para esse ódio é o PT
ser um partido com alguns políticos corruptos, inclusive, condenados
judicialmente, no famoso caso do Mensalão.
Porém, esse argumento não me convence. Convence você?
A mim não convence porque escândalos de corrupção – para
nossa infelicidade – são historicamente conhecidos em quase todos os governos e
partidos. E não vejo os “odiadores” vociferarem contra tais partidos e
políticos conhecidamente corruptos.
A antipatia odiosa, então, é exclusivamente contra o
PT. Mas por quê? Por que essa exclusiva onda de “odiadores” contra o partido
dos trabalhadores?
Minha tese é que os últimos três governos federais
mudaram as “regras do jogo” e aqueles brasileiros que estavam treinados e
gabaritados a sempre ganhar, hoje, se vêem obrigados a reaprender a jogar com
regras e contextos mais coletivos e menos segregados.
Isso irrita mesmo. Ser obrigado a se repensar e mudar
seu modo de vida, mesmo que seja para o bem comum, incomoda. Dá preguiça. “Como assim não é mais do jeito que sempre
foi?”, pensam os “odiadores”.
E como o Brasil sempre foi?
Sempre fomos um país de maioria de pobres e
miseráveis contra poucos com qualidade de vida digna.
Sempre fomos um país racista que manteve milhões de negros
em lugares de subalternidade e muito longe das universidades e posições de
poder.
Sempre fomos uma nação machista na qual mulheres não eram
consideradas agentes políticos.
Sempre fomos uma sociedade onde muitos nãos tinham
acesso a saneamento básico e eletricidade.
Sempre fomos um país no qual os pobres não tinham
acesso de baixo custo aos meios de comunicação e informação e,
consequentemente, aceitavam as “verdades” dos doutores dos conhecimentos sem
muito questionar.
Sempre fomos uma nação onde poucos usavam aviões como
meio de transporte.
Sempre fomos um país em que ter casa própria era algo
inatingível para os mais pobres.
Sempre fomos uma sociedade no qual atendimento médico
era simplesmente inexistente para milhões de pessoas.
Sempre fomos um Brasil com dois “Brasis” dentro: Um
muito miserável e outro com acesso aos direitos básicos e até supérfluos.
Hoje, após 12 anos, o Brasil tem outras regras e as
linhas acima não são mais a nossa realidade.
Mas não é uma melhor realidade que causa incomodo e
consequentemente ódio àqueles, mencionados, 30% da população. Até porque o ódio
é tanto que cegou tais pessoas de enxergarem tais evidentes melhorias. Não só
porque nunca precisaram conviver ou mesmo conhecer a miséria material e simbólica,
mas porque a principal regra mudada é um “tapa na cara” no ego dessas pessoas,
dizendo “VOCÊ NÃO É, COMO SEMPRE PENSOU, UM HERÓI BATALHADOR QUE TRABALHOU
MUITO E FEZ POR MERECER CADA CONQUISTA DA SUA VIDA. NÃO, DESCULPE, MAS VOCÊ É
PARTE DE UM REDUZIDO GRUPO QUE SEMPRE TEVE ALGUM TIPO DE PRIVILÉGIO E/OU ACESSO
AO QUE MILHÕES DE OUTRAS PESSOAS NÃO TIVERAM.”
Isso não quer dizer que essas pessoas não se
esforçaram. Óbvio que sim. Do mesmo modo que os milhões de desfavorecidos
também. É aqui que as mudanças sociais advindas das políticas públicas dos
governos Lula-Dilma enfiam o dedo na ferida dos seus “odiadores”: Vivíamos em
um esquema social com regras muito cruéis, no qual poucos se favoreciam e a
maioria era explorada e subjugada. Ou seja, se você e sua família se deram bem
não foi única exclusivamente por causa do suor do trabalho de vocês, mas,
principalmente, porque conseguiram se estabelecer no lado e nas regras daqueles
que se favoreciam no antigo jogo.
Não à toa é costumeiro ouvirmos os “odiadores”
desqualificarem as políticas chamando-as de “bolsas-esmola”. Tal atitude é, no
fundo, um grito de ódio contra o espelho, contra a si mesmo, mas que se
expressa equivocadamente. Os “odiadores do PT” gritam porque as narrativas que
sempre embasaram suas histórias - familiares e pessoais - de sucesso foram
colocadas em xeque e caíram por terra. Perderam o encanto do conto de fadas do
mérito pessoal.
Isso incomoda. Isso irrita. Que ódio! Ódio do quê? De
quem?
“Da Dilma e dos ‘PTralhas’!!!”, evidente.
Auto-reflexão e mudança de modo de vida, visando o bem comum doem muito,
demandam esforço emocional. É mais cômodo ignorar minha cegueira e dizer que os
pobres não sabem votar. No fundo, os “odiadores” rezam para tudo voltar como
era. “A bola é minha! Se eu não ganho, ninguém joga.”
